Villa Bidão

A presente série é constituída por um conjunto de esculturas que surgem na linha das mais recentes pesquisas do artista, tanto a nível formal como conceptual, que procuram, uma vez mais, chamar a atenção para determinados aspectos ou situações do mundo actual que provocam no autor um sentimento de revolta ou inconformismo.

Carlos No parte sempre de temas provocatórios e neste caso é a evidência de uma miséria que se tornou parte integrante de um tecido arquitectónico e social eleito: os bairros de lata.

Neste conjunto de esculturas Carlos No procura evocar a ideia de bairro de lata enquanto local inóspito para habitação – amontoado de construções improvisadas e frágeis, sem infra-estruturas e saneamento básico – e, para isso, recorre a materiais, de natureza pobre ou usada, que posteriormente recicla e/ou transforma, obedecendo ao mesmo tempo a uma lógica construtiva idêntica à dos seus referentes sem, no entanto, deixar de criar novas linhas de leitura para o tema proposto.

Carlos No denuncia, através do seu olhar crítico e incisivo, alguns aspectos negativos das sociedades contemporâneas abordando conceitos como os de Pobreza e Exclusão, consolidando um percurso relacionado com a problemática das assimetrias económicas e sociais e o reflexo destas na vida de biliões de pessoas que, na maior parte dos casos, se encontram privadas de condições mínimas de sobrevivência tais como, por exemplo, o direito a uma habitação condigna ou a outros bens essenciais à vida como o acesso a água potável.

Oh As Casas As Casas As Casas

Volta-se sempre ao problema da habitação porque a questão central é: onde vamos morar?
E as pessoas andam de um lado para o outro e repete-se sem cessar:
onde vamos morar? onde vamos morar? onde vamos morar? onde vamos morar? onde vamos morar? onde vamos morar? onde vamos morar? onde vamos morar? onde vamos morar? onde vamos morar? onde vamos morar? onde vamos morar? onde vamos morar? onde vamos morar? onde vamos morar? onde vamos morar? onde vamos morar? onde vamos morar? onde vamos morar? onde vamos morar? onde vamos morar? onde vamos morar?

Carregamos coisas, malas, mochilas, arcas, apanhamos aviões, camionetas, boleias. Montamos casas provisórias em arrabaldes de centros mais ou menos periféricos, que logo largamos para outros, provisórios como nós. Dizem-nos que fomos descontinuados, descartáveis como os móveis que antes eram para a vida e que agora são para as épocas. Vai-se vivendo de biscates, contratos a termo, trabalhecos sazonais, formações pagas, convites ad hoc, estágios não remunerados, gig economy e vamos daqui para ali.

Vindos dos mais remotos sítios, atravessamos mares ou montanhas (e de novo os aviões, as camionetas) e dirigimo-nos para as metrópoles onde mais da metade da população mundial mora, incrível só de se pensar nisso – quilómetros de campos e montanhas e vales e estepes sem se ver vivalma, vilas abandonadas, aldeias com velhotes em lares, lares com mais vida do que praças e escolas, monoculturas a perder de vista, vegetação desmesurada nos telhados, solos inóspitos aqui e ali.

E crescem anéis à volta da cidade grande. Erguem-se morros que parecem estantes – ou pilhas, ou amontoados. Ou então rouba-se a terra aos mares e assolam-se os riachos onde as casinhas pernaltas, descaradíssimas, nos olham como pardalitos. Onde vamos morar? perguntam. E na sua pergunta a promessa por cumprir da água que alguém carrega em bidões azul forte, mas também das praças, das ruas, dos transportes, do hospital, da escola – para todos: promessa colectiva.

“Meio ano e roda o empregado” disse-me a menina do balcão do banco (antes estatal), com sede no centro. Mas o banco entretanto mudou de nome, de dono e de mão. E a menina agora vende seguros no balcão ao lado, o que quer dizer que teve sorte porque nem sequer teve de mudar de escritório nem de autocarro de manhã – só de telefone e de companhia, mudaram-lhe a plaquinha ao peito onde aparece escrita a fidelidade juntamente com o nome para se ler: “Gabriela Espanca”. “É alguma coisa à Florbela?” “Sim, sim, somos da mesma família, gente do sul. Charneca rude a abrir em flor”. E pronto: outra vez o para além da metrópole a espreitar na metrópole, dia haverá em que estamos todos cá, moramos nas periferias. No centro os bancos e os turistas.

Ana Bigotte Vieira
Lisboa, Maio 2014

 

METÁFORAS DO REAL

O trabalho de Carlos No é uma acusação, um apelo ao uso consciente dos instintos de fraternidade e à ética colectiva, procura despertar outras formas e níveis de consciência, mostra uma realidade reconstruída onde o quotidiano persiste intencionalmente, mas não se atém a aspectos ou factos concretos da condição humana, de modo a conferir à obra uma dimensão e significado abstractos, na procura da essência dos problemas que levanta, da sua universalidade espacial e temporal, sem particularizar factos concretos de determinado momento ou lugar.

A obra gira sempre em torno dos mesmos pressupostos, para o alerta de uma ética política e social, parte da observação de situações de violência e injustiça que explora num conjunto de obras como o fazia inicialmente com a pintura, ou numa obra só como acontece hoje mais recorrentemente com as instalações.

Diz-nos mais, com a apropriação de objectos comuns que integra nas suas esculturas e instalações, tornadas miniaturas da vida, a verdade que vemos num Bidonville, num serviço de fronteira ou na desigualdade social.

A obra de No é uma metáfora do real.

Intencionalmente e de modo cuidado e consciente, induz o olhar e o pensamento para questões do quotidiano, relacionadas com as tensões existentes pela atitude do homem perante o semelhante, proporcionando os meios de reflexão que evitem o alheamento e a inércia.

O artista não procura levantar questões da arte ou dos seus conceitos, ou da obra sobre si própria, nem procura responder a questões da relação da arte com o público e o privado, questões institucionais, urbanas, mas recorre aos conteúdos que cria pondo em evidência questões relativas à condição humana.

As suas obras não dão espaço a desvios de interpretação, têm um único sentindo de leitura, reforçado pelo título. O olhar, o pensamento e a conclusão são controlados na construção de uma comunicação objectiva e específica, pela limpeza e exactidão na transmissão da mensagem. Fá-lo, recorrendo a figuras alegóricas pautadas por um humor azedo e irónico, tanto pelo tema tratado como por alguma caracterização exagerada.

O ponto de partida da sua obra está no posicionamento desigual de direitos entre homens, sociedades e nações, relevado através da narrativa, de acepção directa, numa permanente posição de defesa de minorias e de excluídos.

O recurso ao ready-made – bidons, carros de mão, sensores de movimento, caixas para ninhos ou tijolos – em No tem um importante papel na construção dos sentidos da obra, como a reutilização e reciclagem de objectos usados, e quase pleonasticamente reforça a mensagem, com a hiperbolização  da imagem do imenso fosso existente entre dois universos antagónicos que coabitam num mesmo mundo.

Assim, um pouco exageradamente, as obras são a recriação figurada da nossa realidade política e económica promíscua, agressiva, repressiva, decadente e inumana, onde a desigualdade impera e é cinicamente aceite por todos e do mais fundo da nossa consciência cínica ele faz aparecer, em miniatura, um desenho do mundo de que nos desresponsabilizamos e alheamos.

Narrativa e poética

Carlos No não procura desenvolver uma obra onde se constate uma elaboração intensa, complexa; pelo contrário, a narrativa é simples e imediata e a complexidade e profundidade dos seus trabalhos encontra-se no depuramento da ideia e nas soluções gramaticais e formais a que recorre.

A obra é escultura, pintura, objecto, instalação e assenta nas suas gramáticas, e noutras como o teatro e a encenação. Os sentidos são directos, controlados, seus, e revelam uma posição de defesa de minorias e de excluídos, com o recurso a soluções sígnicas próprias de um artista atento às suas próprias questões, relacionadas com as do tecido social. Integra ainda muitos elementos da gramática do conceptualismo, mas distancia-se em absoluto da necessidade de concretização da obra: para si, o resultado é relevante.

Em toda a sua obra não se reflectem alterações a questões de conteúdo e lexicais, mas varia a gramática, a escala e a forma e a questão da coerência em No é essencialmente temática e frequentemente lexical, o que suporta uma disparidade de propostas próprias de uma mente verdadeiramente criadora. No seu percurso, tem também recorrido à alteração e ao crescendo da escala – bidimensional, tridimensional objectual, instalações de média e grande escala – um meio usado de aumento do volume do seu grito de revolta.

As suas obras são recorrentemente de sentido único, fechado, apesar do artista ter já afirmado não lhe interessar esta linha unívoca. O ponto de que parte integra frequentemente o resultado a que chega. Ela é fechada e de uma única leitura, intencionalmente consciente ou inconsciente, a subjectividade vem depois, do leitor, e inerente ao seu mundo de fantasia, especulativo. Não é inerente à própria obra.

O observador é chamado à contemplação e reflexão, eventualmente a reacções que não impliquem uma relação física com a obra.

Para a exposição, o artista traz-nos um conjunto de esculturas “engagés”, de interpretação unívoca, onde evidencia o seu pensamento inconformado, quase de revolta, com recurso a alguma ironia e sarcasmo e um significado directo, claro, inequívoco, com que constrói uma narrativa de reflexão crítica sobre aspectos obscuros da nossa crueldade.

Enganadora simplicidade

Há uma enganadora simplicidade na obra de No, que lhe é conferida por uma leitura muito directa. Numa fruição imediata, a que a própria obra induz, deparamos com um trabalho narrativo de leitura simples, o que oculta uma poética a que chega com o recurso a metáforas, alegorias e hipérboles. O referente parece apresentar-se exterior à própria obra, sem questionamento da arte e a sua História. É contudo também uma enganadora simplicidade que oculta o recurso a desconstruções, reutilizações e renomeações, a que o artista confere uma ainda maior complexidade com o recurso ao título, de que emergem outros signos e novos estilos da poética.

A narrativa prende-se com a actualidade, as desigualdades sociais contemporâneas, a barbaridade a que sujeitamos outros povos ou os migrados, enquanto os sentidos construídos pelas relações formais têm um carácter intemporal, universal, válido desde sempre na História da desumanidade humana. Histórica e geograficamente poderemos ver o retrato caricaturado e a crítica nas diferenças Norte/Sul, mas extrapoláveis a qualquer momento ou lugar. Assim aborda a essência da condição de Ser do próprio Homem, esse lado que designaríamos de desumano, porque bárbaro, mas afinal tão profundamente humano, tão nosso, tão basilar em toda a maneira de estar e comportar de sempre.

A relação com o espectador é o momento em que se conclui a obra do artista, com a transmissão das “histórias” nela contidas, que servem de base para a compreensão dos sinais que No pretende fazer integrar no sujeito.

Há um confronto entre o objecto olhado e a nomeação dos seus elementos, conduzindo-nos por um percurso de análise para uma síntese que lhe dá acesso a uma renomeação, entretanto manipulada pelo próprio título da obra, que confere novos sentidos e significados.

A incorporação do ready-made, de reutilizações e reciclagem nas suas esculturas e instalações, além da construção sígnica da sua obra, reforça a mensagem que constrói quase pleonasticamente, com a hiperbolização irónica e satírica da imagem do imenso fosso existente entre dois universos antagónicos que coabitam num mesmo mundo.

O mundo em transformação, hoje de estagnação ou recessão europeia e nascimento e afirmação de novas potências, permite-nos antever algumas das grandes mudanças que iremos presenciar  e não será difícil conceber, no âmbito da Arte, o desenvolvimento de propostas  “engagés”, quer no Ocidente quer nos novos pólos que ganham força e se impõem. A revolta pelo mundo bipolar que temos afecta artistas, o seu pensamento, as suas preocupações e por fim a obra.

Se até agora europeus e norte-americanos criaram “muralhas” para evitar a entrada de brasileiros e indianos, quem sabe o que farão Brasil ou Índia a futuros emigrantes nossos.

Numa época de pauperização propositada e visivelmente intencional da periferia europeia, a obra de Carlos No representará, dentro de alguns anos, uma crítica às barreiras levantadas pelos países nórdicos contra nós, parentes europeus entretanto mais pobres e colonizados.

É nesse carácter intemporal e sem rosto que a sua obra se firma Universal.

Vanda Guerreiro
Fevereiro 2012