Fronteira Namban

ERAM ESTRELAS, SIM

Eram, num filme de Manoel de Oliveira dos anos 80 do outro século, eram estrelas que dançavam num céu ingenuamente azul, sim, ao alto de uma escadaria da Mouraria,  por cima de mendigos, sim, mendigos que éramos, eram doze e cantavam-nas como destino, moeda, Charpentier, era de noite e brilhavam.

Encontro-as agora aqui, estrelas amarelas num chão que foi céu, Europa, território, terreno, apenas um pequeno praticável, chão que pisamos, chão defendido.

Foram sonho, desejo, trabalho, chamou-se-lhe União, são chão azul como se diz que é o planeta visto de muito longe, azul como a distância.

E há uma baliza, grade, arame, gradeamento, há um biombo, polícia, equipamento desportivo, há um impedimento, chamemos-lhe distância de novo, podemos chamar-lhe desafio, trampolim, espaldar, como sempre no desporto, ultrapassagem.

Como são estas estrelas para quem morre a sul, em África, como brilham elas?

Pensamos, é claro, nesse mar mediterrâneo, mar que quem o cantou disse ter sido de encontros, trocas, descobertas, comércio – e agora é ferida sulcada por barcos clandestinos, miseráveis que morrem olhando as estrelas nas areias de Espanha, Itália, Lampedusa, territórios protegidos, pensamos no mediterrâneo.

E eu penso na espada com que Dido, a de Cartago, norte de África, se matou, ao ver o amado Eneias partir para o outro lado do mar, para cumprir o seu destino, fundar Roma, cidade da Lei, a primeira estrela. Ficou sempre essa ferida, que Schengen cimentou, o mediterrâneo é agora cratera aberta, ferida purulenta.

No entanto, ao acentuar pelo título o biombo que a peça surpreendentemente também é, Carlos No aponta-nos um momento (cantado apenas?) em que artes e culturas, gentes e distâncias, línguas até, e tão diferentes, se sonharam, se juntaram de costa a costa, por mares adentro, namban, outro paraíso para gente que se lembra, sabemos lá se foi assim, dizemos.

São sonhos que sonhamos, federações, uniões, desejos, tratados, abraços, e há estrelas pelos céus.

Mas a defesa desses sonhos, a salvaguarda, Schengen, a protecção – mata quantos mortos de morte certa?

No silêncio que as dimensões da peça tornam majestático, demoremo-nos um minuto: há morte neste chão, curvemo-nos.

Jorge Silva Melo
Lisboa, Maio 2013

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PROBLEMAS DE CIRCULAÇÃO

Quando pensamos no significado do conceito de fronteira somos imediatamente impelidos para a imagem fotográfica de uma fronteira física, uma delimitação cartográfica que circunscreve um país, um distrito, uma cidade e tem um contorno correspondente num mapa. Uma fronteira é, porém, muito mais do que uma preposição geográfica. No limite, é parte do desenho de uma construção identitária e cultural na qual um povo, uma cidade ou comunidade assentam a consciência de si.  Talvez por isso o conceito seja tão culturalmente universal. Nenhum império - do romano ao III Reich – ou país – do mais abrangente ao mais ínfimo - abdicou dessa delimitação.

Separar o que está dentro do que está fora; o nós dos outros, é um processo culturalmente constitutivo que assenta na identificação de inúmeras alteridades. Na verdade, julgamos saber quem somos porque não somos os outros e a construção das mitologias nacionais que dão sentido à existência dos povos transformou sempre essa relação numa oposição. Não é por acaso que as fronteiras e sua defesa foram com tanta frequência motivo (ou pretexto) para conflitos bélicos. Elas circunscrevem não apenas o horizonte de uma propriedade material (como a terra), como asseguram a integridade, a pureza cultural e étnica, no fundo, o estado “ideal” (e por isso mítico) de uma comunidade. Se nos construímos contra os outros, a “invasão” pelos outros do nosso espaço vital é uma espécie de corrupção intolerável do que somos. Por isso mesmo a imigração não representa apenas a ameaça económica (a riqueza repartida por mais) que ainda está por provar. Ela constitui uma ameaça à integridade da mitologia nacional de cada pais.

Um artista como Carlos No - natural do país com as fronteiras mais antigas e estáveis do espaço europeu, e simultaneamente, um dos mais periféricos e atrasados desse mesmo espaço - sabe o que a imagem política e cultural que acabámos de desenhar significa: um espaço que se define pelos seus contornos e não pelas suas transversalidades possíveis é tendencialmente um espaço estático, fechado sobre si. Ao mesmo tempo, um artista europeu nascido em 1967 sabe bem o quanto a paulatina construção de um espaço económico e político que permitiu a circulação de pessoas e bens e colocou no seu horizonte uma cidadania europeia significa ainda hoje de promessa não apenas para a Europa mas para todos os povos que a observam.

É verdade que, do ponto de vista temático, a obra de Carlos No tem com frequência o espaço europeu como tema recorrente, embora, em última análise, o seu verdadeiro assunto seja a própria exclusão: o mecanismo da exclusão, a retórica da exclusão; e, no limite, o absurdo da exclusão.

Não poucas vezes, a sua estratégia passa pela convocação do absurdo e da ironia. Ou seja, desrealizando situações reais, o artista opera um processo de desnaturalização do que não é aceitável mas que por infiltramento na realidade se tornou, pelo menos, banal. Por vezes, esse processo passa pela artificialização e desierarquização das dimensões, da escala de cada cena ou objecto ou da interação de elementos culturais ou artefactos que parecem proceder de contextos muito distintos. Na verdade, trata-se de uma estratégia de desfiguração que visa resgatar aquilo que se tornou invisível (muitas vezes por excesso de visibilidade) e com isso proceder a uma indagação da hierarquia moral que sustenta as nossas preocupações colectivas enquanto comunidade.

“Fronteira Namban”, a escultura/instalação que agora se apresenta no espaço do Paiol do Exército da cidade de Elvas utiliza a plenitude destes recursos, ao mesmo tempo que pela sua localização geográfica vem activar um importante conjunto de ressonâncias históricas. Convém, neste particular, não esquecer que Elvas foi secularmente um dos pontos de fronteira mais importantes do país e que o conglomerado arquitectónico de fortificações militares que defendia a condição fronteiriça da cidade foi um dos motivos para a sua consagração recente como património mundial da humanidade.

Mas se é a história que decididamente se convoca e confronta nesta obra, não o é menos o presente na medida em que esta e várias outras obras de Carlos No funcionam sempre como potenciais índices do estado do projecto europeu ou como espelho das suas contradições essenciais.

Colocada numa posição central no edifício circular do paiol, a escultura de No absorve várias condições - como as dimensões, a centralidade, a auto-referencialidade - que a posicionam para a exacta condição de um potencial monumento. Veremos como essas condições são afinal deformadas pelos conteúdos nela inscritos de modo a criar o que poderíamos designar precisamente por um anti-monumento, ou seja, um dispositivo escultórico que traz em si a negação da função celebratória da escultura tradicional.

Ao entrar na sala, o observador distinguirá uma estrutura metálica própria para o salto com vara produzida numa escala natural com o típico colchão que recebe o atleta na queda que se segue à passagem da fasquia. Nessa altura o observador verá no azul do colchão as doze estrelas que compõem o símbolo da União Europeia. O visitante terá que ver mais de perto para descobrir o arame farpado que aqui impede o salto e transforma esse impulso lúdico num jogo perigoso.

O título da peça fornece ainda mais uma leitura do objecto. Namban é uma corruptela de “Namban-jin” o nome que os japoneses davam aos europeus em geral  e aos portugueses no século XVI e que significava “bárbaros do sul”. A arte Namban é uma forma artística que floresceu entre os séculos XVI e XVII e cujas imagens reflectiam o olhar nipónico sobre o ocidente.

A escultura de Carlos No não possui qualquer elemento orientalizante, mas a referência a “Namban” sinaliza o efeito de uma reversão. A sua peça não é uma imagem da Europa como vista pelos Europeus, mas uma tentativa de encontrar o olhar dos que a ela aspiram e dela se vêem excluídos. Por isso é que em “Fronteira Namban” se encontram mesclados signos de aspiração e morte; de utopia e violência.

Usando a imagem de um desporto olímpico, legado pelos gregos antigos, No mergulha no mais fundo da identidade europeia ao mesmo tempo que confronta esse legado associado à cidadania, à democracia e ao primado da lei com a negação da sua universalidade que o fechamento das fronteiras europeias assume e produz.

Com isso, o artista deixa bem claro que uma fronteira aprisiona sempre os dois lados que separa, entregues que ficam ao seu ensimesmamento e auto-confirmação. A Europa contemporânea, cuja pujança histórica se fez da capacidade de ligar o mundo inteiro com os vasos comunicantes do comércio e do contacto cultural (empresa na qual os portugueses desempenharam um papel central), precisa de redescobrir que o que não circula cristaliza, mumifica-se e, a longo prazo, morre. O trabalho de artistas como Carlos No reserva para si o lugar dessa reversão do olhar, a vocação de substituir o medo que nele viaja por uma mais universal, e por isso também europeia, compreensão do humano.

Celso Martins
Barcarena, Dezembro de 2013