Mare Nostrum

CINCO INTROMISSÕES NOS DIÁLOGOS DE “IGNOTO” *

1.

Começo pelo mar, o mar sem gente; o imenso, desumano e ignoto mar. A negação de nós, maior e mais próxima, frente à qual cismamos obtusos. O mar de cujo vazio chegam apelos obscuros das marés que conduzem à hipnose ou à tragédia. O mar dos heroísmos obrigatórios da miséria; o mar dos patriotismos de altifalante; o mar porque na terra, nada.

O mar que neste lugar tudo rodeia e ameaça, pela destruição e pela desmesura, e que por fim tudo salva também ao lembrar ao Homem o seu lugar fora dele, os seus limites, e os deveres da sua humanidade. O mar que é eco, riso e julgamento da história.

Este mar a que se vira costas em todo o Alentejo, quase só neste lugar de Sines se viu desafiado aos confrontos desmedidos impostos pela aventura da dominação do mundo e pelas suas lutas, grandes e pequenas. Lutas ressentidas e temerárias do que foi a pesca e o serviço mercante, e as lutas titânicas da indústria mundial e dos seus colossos fabris. A luta de traineiras e de rochedos de cimento contra o mar; de tanques, contentores e chaminés; de dragões e de venenos. Lutas sem termo neste lugar onde a noite deita chamas e move estrelas misteriosas e por onde andam gigantes de metal, em gestos lentos, de volta de naves imensas. Naves exaustas que o mar deixou passar… fitando o porto e os faróis, e pedindo abrigo e cais à mesma maquina descomunal que as mandou mar fora, possuir, arrancar, dominar.

Este lugar que está só aqui, todavia parece igual ao mundo todo, pela desmesura de forças que nele se afrontam sem medida para o Homem. As forças do mar que rodeia o mundo, e as deste mundo que quer rodear o mar.

Depois das conquistas e dos impérios, das épicas e dos heróis, é por este mesmo mar navegado e abusado que nos chegam agora as réplicas sem resposta, feitas lixo e gente: náufragos, migrantes, penitentes, exilados, suplicantes, silêncio e ondas. Este é o mar e o lugar onde encontro Carlos No e Pedro Valdez Cardoso, nos “diálogos de metáforas” do seu projecto IGNOTO.

2.

Começo pois pelo mar. O mar desumano e corrosivo onde o dejecto e o destroço se confundem até à memória grotesca das glórias e das identidades. Máscaras? Esgares? Brasões? Troféus? O mar e o tempo reduzem tudo a um absurdo indistinto deixando apenas uma ferida profunda e antiga onde o Homem interroga ainda a sua humanidade. O que resta de tão ferozes ganâncias e ambições; deslumbramentos e crimes? A colagem de papeis que se transmutam noutros “papeis”; o desvanecimento de si próprio possuído pelo outro; o tumulto de despojos que dão à costa; a paradoxal reunião dos destinos a que o mar condena. Todo o retrato é desfiguração; o naufrago é a jangada; o outro fica em nós pela própria aniquilação que lhe desferimos, e as gloriosas heráldicas puídas revelam finalmente o alucinado fabulário que narramos como história.

(…)

Mas a terra que rodeia o mar tem um Norte e tem um Sul. Se o mar corrompe o humano, não supera, não liquida, nem redime as desigualdades.

No mar que tudo afunda, chega a parecer beleza a tragédia esquecida dos outros. Camilo Pessanha viu à transparência das águas claras, por entre “conchinhas tenuemente cor de rosa” e “seixinhos da mais alva porcelana”, “róseas unhinhas que a maré partiu… dentinhos que o vaivém desengastara, conchas, pedrinhas, pedacinhos de ossos…”, sinais de “naufrágios, perdições, destroços.”

Sobre esta desumana depuração do esquecimento que o mar trabalha até aos seus fundos, flutua, naufraga e sofre a vida doutras desumanidades.

3.(...)

Talvez uma consideração dos despojos permita reiniciar ainda alguma humanidade no Homem. E talvez só o artista o possa fazer.

4.

Será inesperada a visita destes despojos, assim nem vivos nem mortos? Carlos No mostra-nos o perturbador detalhe da infâmia. A sua “Patera” é uma armadilha e uma arma. Na boca do enorme aparelho de pesca feito metálico, eriçam-se rebordos farpados. Recolhe ele os infortúnios incautos como quem limpa de perigo as águas costeiras. Ao fundo das redes a captura viva apenas deixa ver as suas mortes: a pequena embarcação do desespero, destroçada, os agasalhos dignos mas inúteis, as perguntas cruéis a que outras peças sugerem resposta.

(...)

 Para as desgraças provê a lei os devidos “Flutuadores” (d’aprés Austerliz), em pilha de câmaras de ar que um dispositivo de transporte fará distribuir pelos naufragados com o cinismo de uma extrema unção condenatória.

Noutra peça, “Mare Clausum”, Carlos No sintetiza e amplia toda a inversão de humanidade que o “mare clausum” da antiguidade representa hoje nas mesmas águas. Se salvos do aparelho de arrasto que os devia ter capturado, a cancela ligeira e exacta das fronteiras os trespassará até ao casco da pobre embarcação, deixando ao abandono as roupas dos ignotos passageiros, desaparecidos, anónimos, nulos.

Quem são estas precárias vidas em trânsito proibido? Não são nada, senão um pobre arquivo de bagagens embarcadas. Uma simples carga sem pessoas como no pungente “Cargo” de Carlos No, ou uma vaga passageira de arribação breve a que mal se consente um poiso frágil. Assim vi “Polder”, a sufocante peça do mesmo autor, apontada a mim.

5.

Ignoto é o mar e é o outro; ignoto somos nós a nós próprios negando o estranho e o estrangeiro que também somos.

IGNOTO fala-nos de responsabilidades e por isso de ética, mas confronta-nos também com o desdobramento de ambiguidades em que toda a relação ao outro é pensada.

Os códigos da hospitalidade, os deveres da dádiva e do sacrifício que a comprometem com o sagrado, sabem profundamente até que ponto vai a tensão gerada pela perturbadora alteridade da aparição do outro, tensão a que não é possível escapar nem resolver sem implicar nisso os fundamentos da própria vida social, ou seja, da possibilidade do homem no mundo.

Mas o estrangeiro não chega nunca numa abstracção sem territórios nem história. Refluindo nas marés chega-nos hoje uma humanidade destroçada que julgamos poder ignorar sem nos negarmos também. Não são desconhecidos pois andámos pelo seu mundo e é de lá ainda que nos regressam os navios carregados; não são apenas “outros” pelas diferenças e pela chegada; nem são apenas “estrangeiros” adventícios e transitórios. São suplicantes no sentido mais clássico do termo.

Face ao suplicante, entre hospitalidade e crime não há meio termo e, se as ambiguidades todas da relação ao “outro” se multiplicam perante o estranho que dá à costa, a compaixão permanece como um imperativo radical que nos obriga, e que a ser negado nos extingue.

 

Pedro Prista
Lisboa, Julho 2015

 

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TEORIA DA PALMEIRA VERGADA PARA O SOLO E ESTRATÉGIA DA ESCADA PARA O CÉU *

A exposição reúne trabalhos de dois artistas cujas linguagens plásticas muito claramente se distinguem, mas cujos temas (e mesmo certas estratégias de composição), de modo também muito claro, convergem.

Pedro Valdez Cardoso desenvolve o seu trabalho a partir de exercícios de manualidade explícita, que ele aproxima de práticas de execução artesanal (como seja forrar e encher volumes, cortar e coser tecidos no sentido de mascarar objectos banais de produção massiva), o que o mantém entre a delicadeza poética, a nostalgia e a ironia dos sentidos. Carlos No evita a intervenção manual nas obras, recorre com frequência à fabricação industrial (embora longe de qualquer tentação de design) e à associação de objectos pré-existentes (de fabricação também massiva e banal), garante um discurso onde prevalece a seriedade programática e crítica, mas onde se insinua também a ironia.

A lógica de associação de elementos díspares (ou serialmente concebidos e produzidos) em composições complexas mas coerentes é um dos factores de aproximação entre os dois artistas. Mais significativa é a questão dos temas, que se apresentam, entre ambos, complementares e sequenciais. Por isso mesmo, por não serem temas sobreponíveis, os pontos de vista, noções ou interesses de temporalidade e objectivos de Pedro Valdez Cardoso e Carlos No são diversos; e a linguagem técnica e poética de cada um surge adequada a essa diferença.

Ambos desenvolvem os seus trabalhos sobre o território da História (não apenas o da História da arte, no qual fazem numerosas incursões, mas também o da História política, social e económica). Pedro Valdez Cardoso assume uma ambição abrangente (procurando recuar no tempo e nos conceitos às dimensões imperiais e coloniais); Carlos No apresenta um projecto de intervenção directa, que parte dos dados da realidade imediata da pressão da emigração clandestina sobre a Europa e que se explica como última etapa da globalização colonial. Sabemos que não são estanques os limites de cada um destes territórios: a forte dose de crítica social e política que Pedro Valdez Cardoso dedica aos feitos e efeitos da colonização produzem os seus resultados no tempo imediato em que são apresentados; do mesmo modo, numerosos trabalhos de Carlos No só se entendem, ou só são eficazes, porque estabelecem com a dimensão histórica de “tempo longo” que os justifica, uma forte ligação.

A reunião destes dois artistas numa exposição (porque, de facto, se trata de uma exposição única e não de duas exposições em espaços comuns) configura uma inteligência curatorial subtil e produtiva, que diz muito da experiência construída ao longo dos quase 30 anos de existência do Centro Cultural Emmerico Nunes (CCEN) e dos 10 anos de acção do Centro de Artes de Sines (CAS), estrutura da Câmara Municipal de Sines, que acolhe e é parceiro na produção deste evento. Um complemento essencial desta apreciação positiva será a avaliação dos resultados da montagem que, embora mantendo os artistas em espaços próprios, garante um diálogo fluido entre as peças de cada um deles, ora em versão de contraponto (CCEN), ora em versão de complemento (CAS), permitindo, entre cada sala, um olhar de concentração (Carlos No) ou dispersão (Pedro Valdez Cardoso) da atenção dos visitantes.

(…)

Carlos No trabalha temas que necessariamente ocupam parte essencial da actualidade política europeia, mas pratica sucessivos desvios de sentido (da literalidade política para a dispersão poética). Submetendo os seus habituais elementos de trabalho (os materiais não artísticos com que constrói as peças) a associações contraditórias (uma vezes inesperadas, outras tautológicas), é capaz de nos conduzir a operações de sabotagem de funcionalidade, de forma e de sentido, que resultam numa discursividade que ele controla segundo objectivos, ora deceptivos, ora de neutralidade, ora pensados em modo crescendo. Há um rigor de investigação e pensamento em cada peça, na medida em que ela é elemento de um discurso coerente e dirigido; no entanto, há também um grau de imprevisibilidade, de absurdo ou de impossibilidade, que o conduz para uma dimensão de amarga ironia.

Cada peça é como que um repositório de proibições ou impotências que Carlos No usa como forma de denúncia; mas é também um campo de abertura semântica e inventividade formal, que nos ajuda a superar a simples descrição de cada uma e dos seus objectivos e a evitar leituras ilustrativas. Vejamos algumas das peças que compõem o discurso de Carlos No, sem que tenhamos de seguir as sequências da montagem.

No CAS somos recebidos com um expressivo Bem-vindo (2011). É um sinal europeu de fronteira, que sugere simpatia para quem nela entra. Porém, as estrelas da bandeira europeia são substituídas por silhuetas de sapos, que sabemos serem objecto de superstição dos povos ciganos – sapos e rãs, em modelos cerâmicos ou outros, são usados, por exemplo, em numerosos estabelecimentos comerciais, para prevenir a entrada daqueles elementos da população. Trata-se, portanto, de uma falsa simpatia, da criação de uma barreira. Outros sinais (da série de trabalhos “Trânsito Proibido”, 2009), operando subtis desvios às normas da sinalética rodoviária, completam esta glosa de interdições à emigração dos “novos bárbaros” sobre a Europa, entidade política que se entende a si mesma como território-fortaleza.

Em Flutuadores (d’aprés Austerlitz), Carlos No cita inevitavelmente um ícone do modernismo (Brancusi e as várias versões da sua Coluna Infinita). Neste caso é uma coluna móvel (e pneumática), de 3 metros de altura, composta por um conjunto de câmaras-de-ar empilhadas e assentes sobre um ‘carro de armazém’, usado para transporte manual de objectos pesados. As bóias, que salvam (ou levam à morte) os emigrantes em travessia no Mediterrâneo, também servem, muitas vezes, para fazer elas mesmo jangadas (como na série de evasões célebres em décadas passadas entre Cuba e a Florida). Aqui, ascendem como a coluna de um monumento anti-monumento, como uma scala coelis laica e miserabilista. Ao completá-la com a palavra Austerlitz, Carlos No faz-nos regressar ao real e estabelece um curto-circuito entre a actualidade (bem mais dramática) e o ciclo de migrações internas europeias que, nos anos 50 a 70, faziam da famosa gare ferroviária de Paris a “porta de entrada” dos pobres do Sul e do Leste da Europa.

Três peças específicas continuam esta reflexão sobre as migrações actuais. Fazem-no a partir de um conjunto de elementos comuns: barco, mar, travessia, gente anónima, novas formas de pobreza e escravidão, morte. No CAS, Patera (2015) mostra uma pequena embarcação de pesca, presa no que pode ser o modelo simplificado e desviado (rede de vedação e arame farpado) de uma “rede de arrasto”, um monte de roupa fica perdida pelo chão; Mare Clausum (2015) mostra um dispositivo de controlo de entrada de veículos em parques de estacionamento e, de novo, um bote desmantelado (neste caso, preso verticalmente, autonomiza-se como uma escultura de parede) e ainda mais roupa caída. Finalmente, no CCEN, Cargo (2015) é a simulação de uma longa e muito frágil barcaça, tão carregada de malas de viagem (antiquadas e desgastadas) que nenhum espaço sobra para os passageiros, de que elas tomam a vez. Aqui, o curto-circuito de sentidos é feito em carroussel, com os barcos negreiros traficantes de mercadorias humanas (escravos) que, entre os séculos XV e XIX, permitiram a “acumulação primitiva de capitais”, que hoje garante a existência dos cargueiros de contentores que transportam as mercadorias do mundo globalizado que, por sua vez, integram o sistema de empobrecimento mundial que, finalmente, obriga à emigração massiva dos povos subsaarianos e enche os barcos dos novos traficantes mediterrânicos de novos escravos e desapossados…

O uso das malas de viagem como elemento descritivo pode encontrar a sua superação na mais abstracta das peças da exposição: Excelsas Nascentes (2015) faz subir a uma altura de quase 4 metros, dez dessas malas. Trata-se de mais uma citação erudita: as peças conceptuais e minimalistas de Donald Judd constituídas por paralelepípedos, rigorosamente produzidos em metal, sem intervenção manual do artista, e rigorosamente colocados em sequências seriais. Aqui, há uma desejada perda de rigor mecânico e perda de disciplina formalista. Trata-se de propor uma homenagem que, em simultâneo, é uma crítica (que é uma homenagem crítica). O Modernismo exalta o desejo do rigor e da perfeição; mas o mundo não aguenta mais a exaltação da disciplina, da pureza das formas e das matérias, quando a anarquia toma conta dos territórios, quando milhões de homens em fuga e exilados vivem na miséria física e moral e conhecem a impureza e a infâmia de serem excluídos. Ainda assim, Carlos No propõe-nos uma ascensão, o que poderia ser uma simbólica scala coelis (escada para o céu). Porém, logo percebemos que a sua peça ascensional é feita de velhas e pobres malas de viagem (dos que partem ou dos que partiram, dos que as perderam ou dos que as viram ser esvaziadas); logo percebemos que uma escada (palavra que tem a mesma raiz latina que escala) pressupõe uma hierarquia: pela escada sobe-se (embora se possa também descer); e, numa escala, uns estão em cima, outros estão em baixo. Finalmente, há o título: Excelsas Nascentes. A tradução literal do nome da cidade natal de Donald Judd resulta aqui profundamente irónica: “excelso”, quer dizer muito alto em sentido figurado, ilustre, superior; “nascente” de água (em inglês, “spring”) é também, mola, algo que faz saltar, ou Primavera, uma estação de Esperança.

João Pinharanda
Lisboa, 15 de Julho de 2015

 

* Textos do catálogo da exposição “Ignoto” que teve lugar no Centro de Artes de Sines (CAS) e no Centro Cultural Emmerico Nunes (CCEN), em Sines, de 11 Julho a 25 Outubro de 2015, juntamente com o artista Pedro Valdez Cardoso.