A Peste

O DOMADOR DE ESCALAS

Carlos No é o cartógrafo indocumentado da Europa. Quase quinhentos anos depois do célebre cartógrafo flamengo Gerardus Mercator, a Europa dispõe de um novo cartógrafo que, tudo leva a crer, nunca reconhecerá como tal. É que Carlos No é o anti-Mercator e esta Europa não sabe ou não quer orientar-se senão pelo mapas de Mercator.  Vejamos por quê. Tal como a perspectiva a partir da pintura da Renascença, a escala de Mercator foi o instrumento que definiu e calibrou o olhar do mundo moderno eurocêntrico. A consistência da escala única permitiu transformar a caótica diversidade do mundo em realidades e proporções homogéneas. A escala única, combinada com a técnica de projecção cartográfica adoptada por Mercator, colocou a Europa no centro do mundo, coisa inédita em 1569.

Foi preciso esperar por Carlos No para denunciar radicalmente Mercator. São duas as denúncias, ambas avassaladoras.

Em Carlos No, a unicidade da escala é um artifício que simultaneamente reforça e oculta o poder de quem define a escala. Esse poder, longe de ser trivial, produz a injustiça social e trivializa-a. Produz injustiça histórica e converte-a em triunfo da civilização. Produz injustiça cultural e dá-lhe o verniz do universalismo. É urgente denunciar esse poder. Mas como, se os nossos olhos foram cientificamente treinados para não o ver?

A brilhante resposta de Carlos No reside em mostrar que, se é verdade que a racionalidade científica moderna se rendeu a Mercator, já o mesmo não se pode dizer da arte. A arte de Carlos No liberta a diversidade das escalas e cultiva-a para mostrar que as relações de poder desfiguram tanto os oprimidos como os opressores.

A minúscula humanidade dos oprimidos e excluídos confronta-se com monstruosos objectos de repressão e de regulação. No mundo contemporâneo, grande parte da humanidade vive na condição de sub-humanidade. Não desiste de lutar e por isso todas as figuras de Carlos No caminham, caminham incessantemente. Mas esbarram sempre em algo tão monstruoso que, mesmo se guardado por humanos, está para além do humano, engrenagens abstractas da burocracia e da tecnologia do poder: canalizações de água e de gente, rigorosas nas contagens, infalíveis no controle; castelos inexpugnáveis com portões há muito em desuso; chaveiros indecifráveis, com chaves que guardam na clandestinidade as diferenças entre si; sinais de trânsito concebidos para matar a esperança, bloqueando ou expulsando. Tal como os humanos de Kafka, os humanos de Carlos No esperam sem esperança e constroem a revolta do mundo pela imolação sacrificial ao mundo sem revolta.  

A segunda denúncia de Mercator feita por Carlos No tem a ver com a natureza do centro do mapa-mundi. Para Mercator, a Europa é um centro acolhedor e benévolo, difusor desinteressado da civilização, portador das luzes que irradiarão a todo o mundo. Ao contrário, em Carlos No a Europa é um centro inóspito, hostil, agressivo, excludente e, sobretudo, cínico. Exclui com gestos de inclusão; nega direitos em nome do direito; defende a democracia por métodos anti-democráticos; cria regras universais para retirar delas benefícios exclusivos; desqualifica as outras culturas, reduzindo-as à força braçal para obras públicas; em nome da autonomia individual, submete os imigrantes ao cálculo e à indignidade próprios dos mercados de escravos. Tudo com respeito pelos “direitos humanos universais”, já que estes são um “património incontornável da identidade europeia”. Tudo feito anonimamente para que o poder possa estar em toda a parte sem estar em parte nenhuma.

A Europa de Carlos No é uma fortaleza que se defende de estranhos sem se dar conta de que se está a defender de si mesma. É uma Europa metafórica que está em todo o mundo onde a desigualdade, a injustiça social e a opressão se disfarçam de igualdade, liberdade e fraternidade.  A obra de Carlos No marca uma viragem na Europa: a entrada no tempo pós-Mercator.

Boaventura de Sousa Santos
Coimbra, Junho de 2011

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DIGNUS EST INTRARE

Quem são estes misteriosos nómadas? Quem são estes migrantes sem rostos, mas não sem malas, segurando por vezes suas crias pela mão, que surgem nos degraus dos possíveis … ou será do impossível?

São anónimos, terão eles somente um passaporte? Avançam em direcção a obstáculos extraordinários, cercados, empurrados, e sempre, sem obrigatoriamente o saber, oferecidos à hostilidade do Destino. Do Destino ou dos Homens, seus similares? Estão perplexos, incrédulos… Estarão eles abatidos? Estarão eles desesperados? Eles agarram-se! Eles sabiam bem que não seria tão simples! A tal ponto? A este ponto onde, precisamente, o artista os coloca em cena com ironia!

Carlos No gostaria de acordar as consciências, gostaria de acordar a velha Europa à deriva e também o mundo, porque não? É por isso que, com imaginação e pertinência, dá a volta a objectos que balizam as nossas vidas: alavancas, manómetros, alarmes, contadores, sinais de trânsito… Com estas invenções humanas, cria coisas “desumanizadas”, cria também sorrisos, cria por fim inquietude… Aos poucos, faz-nos sair das nossas certezas e do nosso conforto, remetendo-nos para épocas em que ainda nem éramos nascidos, para séries bárbaras que vimos no cinema! Em ambientes de ficção científica, de teatro trágico-cómico, de travessia maldita, os seus pequenos personagens renderam-se à evidência, são obrigados a submeter-se a uma vontade que ignoram mas que constatam.

Estão impotentes!

Sentimo-nos emocionados; é hilariante vê-los à beira do vazio, obstinados em entrar… Será aqui, na Europa? Aqui onde já não somos nem suficientemente ricos, nem suficientemente generosos, nem suficientemente organizados para os acolher? Não seremos nós também impotentes? E se um dia formos nós quem tem de partir para o exílio? Se formos nós os que terão de reclamar o dignus est intrare?

A Peste, bem como muitas outras doenças do nosso tempo encontram-se na obra de Carlos No.

Elizabeth Couturier-Bardin
Lyon, Setembro de 2011